o rápido cuja água era
transparente e fria como gelo. Um carvalho grotescamente
antigo o abrigava do vento cortante. Tyrion enrolou-se na sua
pele com as costas apoiadas no tronco, bebeu um gole de
vinho e pôs-se a ler acerca das propriedades do osso de
dragão. O osso de dragão é negro devido à grande quantidade
de ferro que contém, dizia o livro. É forte como aço, mas é
também leve e muito mais flexível, e, claro, completamente à
prova âefogo. Os arcos de osso de dragão são muito
apreciados pelos dothrakis, e sem surpresa. Um arqueiro
assim armado pode alcançar mais longe do que com qualquer
arco de madeira.
Tyrion sentia um fascínio mórbido por dragões. Quando
chegara pela primeira vez a Porto Real para o casamento da
irmã com Robert Baratheon, fizera questão de procurar os
crânios de dragão que haviam decorado as paredes da sala de
trono dos Targaryen. O rei Robert os substituíra por
estandartes e tapeçarias, mas Tyrion insistira, até que
encontrou os crânios na cave úmida e fria onde tinham sido
armazenados.
Esperava achá-los impressionantes, talvez mesmo
assustadores, mas não belos. Porém, eram. Negros como ônix,
polidos até ficarem lisos, o osso parecia tremeluzir à luz de seu
archote. Sentiu que gostavam do fogo. Atirara o archote para
dentro da boca de um dos crânios maiores e fizera as sombras
saltar e dançar na parede atrás de si. Os dentes eram longas
facas curvas de diamante negro. A chama do archote não era
nada para eles; tinham-se banhado no calor de fogos muito
maiores. Quando se afastou, Tyrion podia jurar que as órbitas
vazias do animal o tinham visto partir.
Havia dezenove crânios. Os mais antigos tinham mais de três
mil anos; os mais recentes, não mais de século e meio. Estes
últimos eram também os menores: um par de crânios, não
maiores que os de mastins, e estranhamente deformados, tudo
o que restava das últimas duas crias nascidas em Pedra do
Dragão. Eram os últimos dos dragões Targaryen, talvez os
últimos dragões em todo o mundo, e não tinham vivido muito
tempo.
A partir desses dois crânios, os outros aumentavam em
tamanho até os três grandes monstros das canções e das
histórias, os dragões que Aegon Targaryen e as irmãs tinham
soltado sobre os Sete Reinos de antigamente. Os poetas
tinham-lhes atribuído nomes de deuses: Balerion, Meraxes,
Vhaghar. Tyrion estivera entre suas maxilas escancaradas,
sem palavras e cheio de respeitoso temor. Podia ter entrado a
cavalo pela garganta de Vhaghar, embora não fosse possível
voltar a sair, Meraxes era ainda maior. E o maior de todos,
Balerion, o Terror Negro, podia ter engolido um auroque
inteiro, ou até mesmo um dos mamutes peludos que diziam
viver nas frias extensões para lá do Porto de Ibben.
Tyrion ficou naquela cave úmida durante muito tempo, de
olhos fixos no enorme crânio de olhos vazios de Balerion, até
o archote se gastar, tentando abarcar o tamanho do animal
vivo, imaginar a aparência que podia ter tido quando
estendia as grandes asas negras e varria os céus, a exalar fogo.
Seu remoto antepassado, Rei Loren do Rochedo, tinha
tentado lutar contra o fogo quando uniu forças com o Rei
Mern, da Campina, a fim de se opor à conquista Targaryen.
Isso acontecera havia perto de trezentos anos, quando os Sete
Reinos eram reinos, e não meras províncias de um reino mais
vasto. Entre ambos, os dois Reis tinham seiscentos
estandartes, cinco mil cavaleiros montados e dez vezes esse
número em cavaleiros livres e homens de armas. Diziam os
cronistas que Aegon, o Senhor dos Dragões, possuía talvez
um quinto dessa força, e que a maioria de seus homens tinha
sido recrutada das fileiras do último rei que matara, homens
de fidelidade incerta.
As tropas encontraram-se nas planícies da Campina, entre
campos dourados de milho pronto para a colheita. Quando os
dois reis se apresentaram, o exército Targaryen tremeu,
estilhaçou-se e começou a fugir. Por alguns momentos,
escreviam os cronistas, a conquista esteve por um fio... mas só
por esses breves momentos, antes que Aegon Targaryen e as
irmãs se juntassem à batalha.
Foi a única vez que Vhaghar, Meraxes e Balerion foram todos
soltos ao mesmo tempo. Os poetas os chamaram o Campo de
Fogo. Quase quatro mil homens morreram queimados
naquele dia, e entre eles contava-se o Rei Mern da Campina,
Rei Loren escapou e viveu tempo suficiente para se render,
prestar vassalagem aos Targaryen e gerar um filho, fato que
deixava Tyrion devidamente grato.
- Por que lê tanto?
Tyrion ergueu os olhos ao ouvir aquela voz. Jon Snow estava
a alguns pés de distância, olhando-o com curiosidade. Fechou
o livro sobre um dedo e disse:
- Olhe-me e diga o que vê.
O rapaz olhou-o com suspeita.
- Isto é algum truque? Vejo você. Tyrion Lannister.
Tyrion suspirou.
- Você é notavelmente gentil para um bastardo, Snow. O que
vê é um anão. Você tem o quê? Doze anos?
- Catorze - disse o rapaz.
- Catorze, e é mais alto do que alguma vez serei. Minhas
pernas são curtas e tortas, e caminho com dificuldade.
Necessito de uma sela especial para não cair do